Depois de uma caminhada lenta e interminável, acabei por voltar ao café e ao entrar, ocupei a mesma cadeira que já vinha ocupando nos últimos meses.
A Garçonete aproximou-se com um sorriso indecifrável, misto de alegria e satisfação.
-Um café.
Ela não respondeu, fingiu anotar e foi levar o pedido ao balcão. Meus pensamentos estavam longe, meu caminho parecia disperso e irregular. Nunca andara tanto à procura de uma resposta simples; nunca sentira com tanta intensidade as mazelas alheias, como se fossem essas, parte de mim mesmo.
Ia acumulando minhas lamentações quando entrou uma moça trazendo consigo apenas uma mochila nas costas e um corpo leve que parecia imperceptivelmente flutuar a cada passo que dava.Ela sentou-se na mesa defronte à minha e ajeitou o cabelo.
Quase que imediatamente à chegada da Garçonete, pediu uma água. "Vejo depois se me dá fome". Antecipo que não deu, e foi simplesmente o que ouvi.
Para mim, um contato quase que ilusório, uma apresentação imprópria à sua voz.Junto ao meu café, trouxeram sua água. Ela sorriu timidamente e agradeceu. Não era bonita, nem atraente. Era uma menina; talvez tão inocente quanto, andando pela corda limítrofe entre a pureza e a sedução. Meus olhos já cansados de aparências, alertaram ao coração que aquela menina era diferente de todas as outras quando ela tomou o primeiro gole de água e ficou olhando a rua através da vidraça.
Uma demagogia talvez, mas seus olhos eram tão distantes e inexplicáveis quanto os os meus. Instintivamente me veio à memória "O Sorriso de Mona Lisa". Nem mesmo Da Vinci seria capaz de pintar aquele olhar em toda sua essência, dando margem de dúvidas quanto à que direção ela estaria ou não olhando; seriam belos olhos numa composição duvidosa. Apenas eu poderia enxergá-los com confiabilidade pois estariam olhando na mesma direção que os meus.
Foram exatos 10 minutos de contemplação; ela levantou-se, foi ao balcão pagar e saiu. Eu a acompanhei até a esquina, onde virou, depois já não a via em outro lugar senão na xícara do meu café já frio.
-Qual o valor da conta esse mês?
-Deixa eu ver...quinze reais.
Paguei no balcão, fiz menção de sair e voltei a olhar para a Moça-do-Caixa:
-Dá um jornal e um maço de cigarros, coloca na conta do mês que vem.
-Sim, senhor.
-Até amanhã.
-Até amanhã. Saí pensando ainda nas respostas que eu buscava encontrar nos outros, mas que por retorno só me confidenciavam a obscuridade de cada um.
