sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Um olhar sobre vozes

Depois de uma caminhada lenta e interminável, acabei por voltar ao café e ao entrar, ocupei a mesma cadeira que já vinha ocupando nos últimos meses.
A Garçonete aproximou-se com um sorriso indecifrável, misto de alegria e satisfação.
-Um café.
Ela não respondeu, fingiu anotar e foi levar o pedido ao balcão. Meus pensamentos estavam longe, meu caminho parecia disperso e irregular. Nunca andara tanto à procura de uma resposta simples; nunca sentira com tanta intensidade as mazelas alheias, como se fossem essas, parte de mim mesmo.
Ia acumulando minhas lamentações quando entrou uma moça trazendo consigo apenas uma mochila nas costas e um corpo leve que parecia imperceptivelmente flutuar a cada passo que dava.Ela sentou-se na mesa defronte à minha e ajeitou o cabelo.
Quase que imediatamente à chegada da Garçonete, pediu uma água. "Vejo depois se me dá fome". Antecipo que não deu, e foi simplesmente o que ouvi.
Para mim, um contato quase que ilusório, uma apresentação imprópria à sua voz.Junto ao meu café, trouxeram sua água. Ela sorriu timidamente e agradeceu. Não era bonita, nem atraente. Era uma menina; talvez tão inocente quanto, andando pela corda limítrofe entre a pureza e a sedução. Meus olhos já cansados de aparências, alertaram ao coração que aquela menina era diferente de todas as outras quando ela tomou o primeiro gole de água e ficou olhando a rua através da vidraça.
Uma demagogia talvez, mas seus olhos eram tão distantes e inexplicáveis quanto os os meus. Instintivamente me veio à memória "O Sorriso de Mona Lisa". Nem mesmo Da Vinci seria capaz de pintar aquele olhar em toda sua essência, dando margem de dúvidas quanto à que direção ela estaria ou não olhando; seriam belos olhos numa composição duvidosa. Apenas eu poderia enxergá-los com confiabilidade pois estariam olhando na mesma direção que os meus.
Foram exatos 10 minutos de contemplação; ela levantou-se, foi ao balcão pagar e saiu. Eu a acompanhei até a esquina, onde virou, depois já não a via em outro lugar senão na xícara do meu café já frio.
-Qual o valor da conta esse mês?
-Deixa eu ver...quinze reais.
Paguei no balcão, fiz menção de sair e voltei a olhar para a Moça-do-Caixa:
-Dá um jornal e um maço de cigarros, coloca na conta do mês que vem.
-Sim, senhor.
-Até amanhã.
-Até amanhã. Saí pensando ainda nas respostas que eu buscava encontrar nos outros, mas que por retorno só me confidenciavam a obscuridade de cada um.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Notícias do Cotidiano

-Moço, por favor, você viu esse menino?
-Não, minha senhora, eu não vi.
-Já viu ele alguma vez?
-Sim, já vi, mas não agora, acho que nem hoje.
-E o senhor, viu esse menino?
O homem ajeitou os óculos, recolheu a foto nas mãos, olhou para a mulher, para os amigos e disse enfim:
-Não é um que costuma vender balas por aqui?
-Ele mesmo...não voltou para casa ontem e não acho ele em lugar nenhum!
-Ora minha senhora, se o menino vive na rua, a senhora vive sabe-se Deus onde...o que queria? Que ele ficasse aqui sentado esperando! Uma hora ele tá aqui na praça, outra hora não...às vezes pede pra gente deixar ele entrar no táxi, ele brinca de motorista e...acaba sempre dizendo a mesma coisa, que qualquer dia ele pega as balas dele e vai embora, está sempre se queixando, sempre muito taciturno. Sinto muito, se eu ver ele por acaso, digo que a senhora está procurando.
E não houve meio de convencer a mulher de que logo ele voltaria, até porque nenhum deles acreditava nisso.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

TPM

Orácio era de uma falta de opinião surpreendente. Seus olhos diziam sempre a mesma coisa, seus pés o levavam sempre para o mesmo lugar. Seu rosto possuía sempre a mesma expressão de cansaço, o passo arrastado, as mãos repousadas, os cabelos sempre bem penteados, a boca constantemente fechada, sem risos, sem palavras. Ele todo era um tédio, de um tédio cansativo, de uma moleza desprezível. Nunca ousara sair do lugar, nunca pensara em viajar; conformava-se com o seu pouco, e aos poucos deixava isso bem claro em uma conversa longa que travávamos naquela tarde:
-Eu disse não, e pra mim isso é suficiente!
-Já parou pra pensar que o SEU suficiente pode ser POUCO pra mim?
-Pensasse antes de me dizer "sim".
-Sempre essa mesma desculpa não é? Pois bem, Orácio, fique com esse emprego reles, fique com essa casa velha, com suas roupas desbotadas, seus sapatos gastos! Eu vou embora!
-Vai para onde? Para a casa da sua mãe? Para voltar em dois dias dizendo que não a suporta? Diga Silvana! Você diz que eu sou previsível, mas você não foge à regra. Seus vestidos sempre bem passados, os lençóis sempre azuis ou brancos, as toalhas de banho em ordem, com tons combinando...e os talheres? ah Deus, os talheres; é capaz de passar horas para acertar o jeito exato de a faca ficar na mesma linha da ponta do garfo! Os brincos sempre no mesmo lugar na caixa, que sempre tem que estar no lado direito da cômoda, perto do perfume de frasco azul, porque o de frasco vermelho, tem de ficar perto do espelho "para reluzir melhor"! As cortinas, os bibelôs da estante, os tapetes, até para fazer amor você tem suas exigências regulares. Até essa conversa...
Ele virou-se bruscamente foi ao escritório buscar um calendário e voltou:
-Essa conversa "Silvaninha da minha vida"...sabe que dia é hoje? Hum?
-Sim, sei exatamente que dia é hoje, dia 21!
-Pois bem, até nisso você é insuportavelmente regrada...e de 28 em 28 dias, exatos, a gente discute a mesma coisa! Eu vou trabalhar!
Ele saiu com os passos arrastados, a expressão cansada, o mesmo olhar de sempre. Deu um breve beijo no meu rosto e eu mais que nunca sabia que o amava.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Uma nota de desconsolo

-Bom dia, o que vai querer?
-Bom dia, só o de sempre.
-Um expresso descafeinado e um pão-de-queijo?
-Por favor, traga também o jornal.
-Sim, senhor.
Sentou-se na cadeira do balcão.Os olhos do homem prenderam-se alguns instantes nas janelas e um suspiro fundo segui-se, encerrando quem sabe o desejo de sair na chuva e se fingir perdido para fugir do dia-a-dia, para provar quem sabe, um pão com manteiga e um café puro e forte, sem sensibilidades, sem padrões.
-Aqui está o jornal, o café...e os pães.
A garçonete fez menção de retirar-se, mas propositalmente encontrou uma mancha qualquer no balcão que a deteve durante um tempo mais no mesmo lugar.
O homem encarou-a assustado enquanto fingia ler algo no jornal. Olhou para os lados, sorviu outro gole de café e sorriu quando ela se retirou.
Respirou bem fundo e conteve-se à folhear o jornal minuciosamente, como se lhe fossem de agrado todas as reportagens.
Era sua fuga interior, o medo de ser descoberto e empurrado aos seus algozes; nunca intercederia por uma moça que resumia-se a um uniforme sem cor, um prato de pães ou bolos e uma xícara de café. Mas e seu belo sorriso, onde caberia? Em seus desejos, em seus pensamentos mais profundos e secretos, longe dos olhos alheios.
Comeu como se não tivesse nada na boca, somente um gosto amargo de covardia. Tomou o último gole de café e acenou para que viessem receber.
A moça que já observava de longe aproximou-se:
-Quanto ficou?
-O café é 70 centavos, o pão 60, mas está na promoção...
-E o jornal?
Sem responder, uma lágrima caiu de seus olhos. O homem empalideceu, seu medos eram agora todos públicos; aquela lágrima era mais que a dor do esquecimento, mas a tristeza do engano, do aproveitamento consumado entre falsas promessas que ele mesmo já não lembrava que fizera.
-Sirvo todas as manhãs a mesma coisa, sabe o preço de tudo e há mais de 2 semanas que temos a promoção, conhece até o preço do jornal. Por que alongar essa conversa? Pague tudo no caixa e vá embora se não tem mais nada a dizer. E não fique me esperando sair da janela do seu escritório.
A garçonete falou tudo calmamente e baixo, mas no entanto, ele olhava estarrecido para os outros clientes a fim de se certificar que ninguém compreendia o por quê de um homem rico e bem sucedido com dinheiro suficiente para freqüentar diariamente o café ao lado, insistia em comer pão-de-queijo todas as manhãs naquela lanchonete.
Antes de sair, tocou levemente suas mãos, deixou uma nota de dez reais e sequer olhou para trás.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

André

A dor de perdê-lo era quase impossível de enfrentar. Pousava minuto a minuto os olhos na janela esperando ver seu rosto aparecer entre a multidão que circulava pela rua, lembrando sofrivelmente nossa última conversa, ouvindo-o ainda dizer que era meu, somente meu, e de mais ninguém, mesmo sabendo que o que ele buscava estava fora de mim, longe demais de nós dois.

Calculando o tempo, não me lembrava quantas noites foram mal dormidas, quantas ofensas eu havia perdoado em nome de um sentimento tão raro, tão expesso e tão estranho.

Ele ultimamente mentia constantemente, já não fazia questão de ser coerente, suas mentiras mais loucas para mim eram verdades indiscutíveis, tola eu, se ele dizia calmamente, com aquela voz suave "Lígia, dois e dois são cinco, será que não vê?", eu acreditava.

Acreditava porque ele sabia que me nutria com toda aquela rispidez, com aquele falso afago, com os olhos risonhos pedindo encarecidamente para ir embora; ele sabia que incansavelmente eu chamava por ele todas as vezes em que meu coração se apertava, esperando um telefonema, uma mensagem, qualquer sinal que me provasse que ele ainda pensava em mim, ele conhecia minha lógica e dela tinha total controle.

"Você me destrói André, como pode ser tão insensível?" e ele nunca respondia. Pegava a jaqueta, a chave da moto e sumia, por horas, dias e não dava notícia. Quando voltava, trazia consigo uma desculpa qualquer, pedia chorando que eu o perdoasse, arrancava a roupa e se deitava comigo; era o suficiente para me fazer feliz pelas próximas semanas, até que ele consumia-se no meu cansaço, no meu ciúme, no meu desespero e voltava bêbado, quebrando a casa, rasgando fotos, ofendendo o que restava ainda da minha dignidade.

Confesso que chegava horas em que eu me cansava, desejava que ele não voltasse e me apegava a tudo que era concreto, pensava no meu trabalho, nos meus filhos, no meu marido, tinha gana de sumir, de nunca mais ser achada, mas bastava aquele sorriso meigo de menino pedinte, esperando inquietamente a recompensa pelo favor feito, para eu desistir de mim mesma.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Cansei das apresentações

Idéia pronta, layout refeito, textos selecionados...
Mãos à obra!